sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Palmadas no menino barroco

Tivesse Kant lido Aristóteles, teria evitado cair em erros tão elementares, poupando a humanidade das mais grosseiras e perigosas abstrações pessoais sobre o real, as quais infelizmente legaram os séculos seguintes.

O sistema trágico do alemão de Königsberg transforma as categorias do pensamento em moldes apriorísticos da realidade, transportando a inteligência como que para longe de sua própria matéria-prima. É, sem dúvidas, uma construção infantil do real, no sentido mais psicológico do termo, uma abstração tão forçada e teimosa que teria feito Aristóteles lhe desferir umas boas palmadas. O estagirita colocaria um chapéu de burro no menino barroco e de castigo o faria repetir no quadro-negro a frase "prometo nunca mais chutar a inteligência para fora do real", "prometo nunca mais chutar a inteligência para fora do real", "prometo nunca mais chutar a inteligência para fora do real", riscando com um giz branco fenomênico sobre o numen negro da lousa, e ai dele que não o fizesse de forma concreta!

Ora, o que diz Aristóteles? Que não podemos pensar se não tivermos sobre o que pensar. E o que mais seriam as categorias, senão uma ponte entre a inteligência e o mundo?

Todo o empenho descomunal do espírito aristotélico em harmonizar sujeito e objeto, conceito e substrato, forma e matéria, seria simplesmente rasgado em uma bifurcação cujos caminhos, independentes, a nada levam, exceto a males imperscrutáveis. Aristóteles foi dividido pela história que o seguiu. O que ele buscou unir os outros (modernos) buscaram separar. Talvez só São Tomás de Aquino o tenha compreendido plenamente. Tal acordo, tal harmonia de espírito, pode ter acontecido em função de uma conjuntura que ambos compartilharam: o cosmopolitanismo filosófico - helênico no estagirita, católico no aquinate. (Seria este o mesmo espírito ao qual se refere Mário Ferreira dos Santos quando atenta para a capacidade ecumênica do pensamento brasileiro?)

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